sábado, 1 de outubro de 2011

Não sei se a vida é curta ou longa para nós, mas sei que nada do que vivemos tem sentido, se não tocarmos o coração das pessoas.
Muitas vezes basta ser: colo que acolhe, braço que envolve, palavra que conforta, silencio que respeita, alegria que contagia, lágrima que corre, olhar que acaricia, desejo que sacia, amor que promove.
E isso não é coisa de outro mundo, é o que dá sentido à vida. É o que faz com que ela não seja nem curta, nem longa demais, mas que seja intensa, verdadeira, pura enquanto durar. Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina.

Cora Coralina

Casa Arrumada
Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

Casa arrumada  é assim:
Um lugar organizado, limpo, com espaço livre pra circulação e uma boa
entrada de luz.
Mas casa, pra mim, tem que ser casa e não um centro cirúrgico, um
cenário de novela.
Tem gente que gasta muito tempo limpando, esterilizando, ajeitando os
móveis, afofando as almofadas...
Não, eu prefiro viver numa casa onde eu bato o olho e percebo logo:
Aqui tem vida...
Casa com vida, pra mim, é aquela em que os livros saem das prateleiras
e os enfeites brincam de trocar de lugar.
Casa com vida tem fogão gasto pelo uso, pelo abuso das refeições
fartas, que chamam todo mundo pra mesa da cozinha.
Sofá sem mancha?
Tapete sem fio puxado?
Mesa sem marca de copo?
Tá na cara que é casa sem festa.
E se o piso não tem arranhão, é porque ali ninguém dança.
Casa com vida, pra mim, tem banheiro com vapor perfumado no meio da tarde.
Tem gaveta de entulho, daquelas que a gente guarda barbante,
passaporte e vela de aniversário, tudo junto...
Casa com vida é aquela em que a gente entra e se sente bem-vinda.
A que está sempre pronta pros amigos, filhos...
Netos, pros vizinhos...
E nos quartos, se possível, tem lençóis revirados por gente que brinca
ou namora a qualquer hora do dia.
Casa com vida é aquela que a gente arruma pra ficar com a cara da gente.

Arrume a sua casa todos os dias...
Mas arrume de um jeito que lhe sobre tempo pra viver nela...
E reconhecer nela o seu lugar.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

morte súbita.

Essa semana me chega uma daquelas noticias bombásticas na vida da gente.... Morte.... porque é que quando vem, "doi". No início do ano vim conhecer um menino filho de velha conhecida lá pelas Esmeraldas. Gente boa que só... tava começando a viver... de repente uma voaçao qqer do destino deram um balaço no moleque.... A gente fica muito abalado com isso... Para onde estamos indo...
aí vou postar o comentário da Dany (amiga de Ouro Preto) justificando sua crença nas pessoas..

"mas enfim...
eu acredito q nem tudo está perdido....
por mais q existam coisas ruins, ainda existem pessoas boas....
e eu realmente acredito nisso....
fico triste, abalada, mas no fundo eu não me sinto desamparada, sabe?
e é uma coisa quase inerente ao meu ser.... eu simplesmente.... ACREDITO!"

Também acredito mas a gente sempre fica temeroso.... Que o futuro proximo nos espera.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Envelhecer

Envelhecer é bom para a mãe dos outros.

Jorge Reigada, O Velho Aprendiz (Puto da vida!)"

Envelhecer. Sentar numa pedra e olhar a paisagem...

Me disseram que o envelhecer nos permite a calma e a paz para cumprir a frase acima. Droga nenhuma!

Primeiro, a aposentadoria é pouca e você tem que continuar a trabalhar para melhorar a pipoca.

Depois vem a condução.

Você fica exposto no ponto do ônibus com o braço levantado esperando que algum motorista de ônibus te dê uns 65 anos. Olha... a analise dele é rápida. Leva uns 20 metros e, quando pára, tem a discussão se você tem mais de 65 ou não.

No outro dia entrei no ônibus e fui dizendo: " Sou deficiente".

O motorista me olhou de cima em baixo e perguntou: Que deficiência você tem? " Sou broxa! Ele deu uma gargalhada e eu entrei.

Logo apareceu alguém para me indicar um remédio. Algumas mulheres curiosas ficaram me olhando e rindo... Eu disse bem baixinho para uma delas: " Uma mentirinha que me economizou R$ 1,50, não fica triste não"

Bem... fui até a pedra do Arpoador ver o por do sol. Subi na pedra e pensei em cumprir a frase. Logicamente velho tem mais dificuldade. Querem saber?

Primeiro, tem sempre alguém que quer te ajudar a subir: " Dá a mão aqui, senhor!!! Hum, dá a mão é o cacete, penso, mas o que sai é um risinho meio sem graça.

Sentar da pedra e olhar a paisagem. É, mas a pedra é dura e velho já perdeu a bunda e quando senta sente os ossos em cima da pedra, o que me faz ter que trocar de posição a toda hora.

Para ver a paisagem não pode deixar de levar os óculos se não, nada vê. Resolvo ficar de pé para economizar os ossos da bunda e logo passa um idiota e diz: "O senhor está muito na beira pode ter uma tontura e cair."Resmungo entre dentes: ... "só se cair em cima da sua mãe"... mas, dou um risinho e digo que está tudo bem.

Esta titica deste sol esta demorando a descer, então eu é que vou descer, meus pés já estão doendo e o sol nada. Vou pensando enquanto desço e o sol não - " Volto de metrô é mais rápido." Já no metrô, me encaminho para a roleta dos idosos, e lá esta um puto de um guarda que fez curso, sei eu em que faculdade, que tem um olho crítico de consegue saber a idade de todo mundo.

Olha sério para mim, segura a roleta e diz: O senhor não tem 65 anos, tem que pagar a passagem." A esta altura do campeonato eu já me sinto com 90, mas quando ele me reconhece mais moço, me irrompe um fio de alegria e vou todo serelepe comprar o ingresso.

Com os pés doendo fico em pé, já nem lembro do sol, se baixou ou não dane-se. Só quero chegar em casa e tirar os sapatos... Lá estou eu mergulhado em meus profundos pensamentos, uma ligeira dor de barriga se aconchega... Durante o trajeto não fui suficientemente rápido para sentar nos lugares que esvaziavam...

Desisti... lá pelo centro da cidade, eu me segurando, dei de olhos com uma menina de uns 25 anos que me encarava... Me senti o máximo. Me aprumei todo, estufei o peito, fiz força no braço para o bíceps crescer e a pelanca ficar mais rígida, fiquei uns 3 dias mais jovem. Quando já contente, pelo menos com o flerte, ela ameaçou falar alguma coisa, meu coração palpitou. É agora... Joguei um olhar 32 (aquele olhar de Zé Bonitinho) ela pegou na minha mão e disse: " O senhor não quer sentar? Me parece tão cansado !!! ...

Olha, ficar velho é bom para a mãe dos outros...

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

MELANCOLIA E VIDA (do amigo Ricardo Montedo)

MELANCOLIA E VIDA
Ricardo Montedo
Vez por outra, sinto-me invadido por estranha melancolia, misto de felicidade e tristeza, uma sensação de ter vivido muito e deixado de viver outro tanto; de ter amado intensamente, porém não o suficiente; de ter falado muito, sem dizer a palavra certa; de que as lágrimas vertidas não o foram com a emoção necessária; de que talvez as amizades pudessem ter sido mais bem cultivadas e os abraços, mais fortes; os olhares, mais francos e diretos; sei lá, uma sensação de incompletude, de coisas por fazer, atitudes a tomar, resoluções a executar, contas em aberto.

Então, socorro-me das boas lembranças, reviro o baú da memória, e de lá retiro rostos, paisagens, emoções, amores, momentos mágicos, amizades antigas e concluo:
- Ora bolas! Valeu a pena.

Só valeu, como diria alguém, só valeu. Afinal, desculpem-me a obviedade, o bom da vida é viver, cara-pálida!

Então, decido seguir vivendo, progredindo aqui, tropeçando acolá, sorrindo muito, chorando vez por outra, tentando tornar-me uma pessoa melhor a cada dia, desbastando esta pedra bruta chamada Eu.

Acompanham-me meus amores e amigos, meus irmãos e mestres, todos, como eu, eternos aprendizes e companheiros de jornada, na incessante busca da verdade absoluta, que, embora incompreendida e inalcançável, pode ser expressa por uma simples palavra: VIDA!

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

TENTA ME ESQUECER

Mario Quintana

Tenta esquecer-me...
Ser lembrado é como evocar um fantasma...
Deixa-me ser o que sou,
O que sempre fui, um rio que vai fluindo...
Em vão, em minhas margens cantarão as horas,
Me recamarei de estrelas como um manto real,
Me bordarei de nuvens e de asas,
Às vezes virão a mim as crianças banhar-se...
Um espelho não guarda as coisas refletidas!
E o meu destino é seguir... é seguir para o Mar,
As imagens perdendo no caminho...
Deixa-me fluir, passar, cantar...
Toda a tristeza dos rios
É não poder parar!

domingo, 7 de setembro de 2008

Eu sei, mas não devia.

EU SEI, MAS NÃO DEVIA
Marina Colassanti

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter
outra vista que não as janelas ao redor.
E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.
E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender cedo a luz.
E à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora.
A tomar o café correndo porque está atrasado.
A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem.
A comer sanduíche porque não dá para almoçar.
A sair do trabalho porque já é noite.
A cochilar no ônibus porque está cansado.
A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir.
A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta.
A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita.
E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.
E a pagar mais do que as coisas valem.
E a saber que cada vez pagará mais.
E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro,
para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma à poluição.
Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro.
À luz artificial de ligeiro tremor.
Ao choque que os olhos levam na luz natural.
Às bactérias de água potável.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer.
Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui,
um ressentimento ali, uma revolta acolá.
Se a praia está contaminada a gente molha só os pés e sua no resto do corpo.
Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.
Se o trabalho está duro a gente se consola pensando no fim de semana.
E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida.
Que aos poucos se gasta e que, gasta de tanto se acostumar, se perde de si mesma.

Texto original: http://www.pensador.info/p/marina_colassanti/1/